O platonico tem razão de ser e existir, nem sempre é aconselhável sair do campo da imaginação. A situação é a que segue:mulher idiota, se achando muito mulher mas sempre agindo de forma infantil nas vicissitudes da vida. Ela era tímida, mas do tipo quase arrogante "pago pra ver", o que por si só revela uma incontestável incoerencia. O problema é que as posturas e decisões a base desta premissa, ou habitualmente dependentes de maturidade, caiam por terra quando frente a frente com os gigantes criados na sua mente. Era uma criança, agia como tal.
Ela jantou na noite anterior com o tumor adormecido embaixo do lado esquerdo do peito, localizado na cavidade entre a grade das costelas e o orgão pulsante, mantendo as mãos postas na mesa de forma quase relaxada, ignorando o zumbido distante se aproximando perigosamente do labirinto, desviando as palavras das curvas perigosas. Entrelaçou os braços para compor uma couraça protetora aos " e se" e ao ruído provocado pelo trincar da parede iluminando o salão. A luz, em algum momento desejada, agora podia ferir seus olhos. Ela distraiu seus pensamentos com a imagem de um campo florido numa tarde de verão desvanescente, foi deixando a doçura afastar-se sem causar dor, quase morfinada. Ela não tinha subido no vagão a 15 anos atrás, não tinha pago pra ver.
O acontecido, somado a uma temporada de tufões, alimentou nela a certeza do dia seguinte, o esforço de kilometros a vencer com objetivos verdadeiros e honestos, mas agora numa análise póstuma, talvez falsos. Ela corria contra sua própria parede. O encontro foi quase formal e ela não percebeu. Não percebeu que a generosidade era somente generosidade, que não era hábil leitora de sinais. Tudo estava meio esfumaçado e recoberto com um filtro leitoso que lhe impedia de ver os detalhes. Ela não deveria ter usado a bebida para esconder sua incapacidade de ser, mesmo porque o teor alcoolico não era suficiente para tal. Ela deveria ter sido menos vaidosa, mais humilde, mais mulher e, ali, na mesa, ter perguntado.
A resposta dele seria "não", ela engoliria em seco mas o cavalheirismo dele seria delicado.
Mas não, ela quis escavar a ferida, ela quis pagar pra ver.
Quase 04 horas depois ela fechou atrás de si a porta do quarto e fez o que ele não viu: deixou correrem livres as lágrimas de vergonha por ter derrubado um vaso tão precioso, ter quebrado algo tão belo.
segunda-feira, 12 de dezembro de 2011
terça-feira, 30 de agosto de 2011
Do amor e outros enganos
Aos 16 anos, no colégio, o tema da redação era "Amor". Eu tinha um visão muito particular da proposição, longe de ser romântica, resumidamente escrevi que este sentimento, para ser verdadeiro, deveria ser de tal intensidade, que me parecia impossível ao ser humano suportá-lo. Amar significava uma espécie de morte do indivíduo. Amar significava consumir-se em auto combustão. A nota de rodapé da correção provocou em mim uma das muitas revoltas contra o sistema educacional, já que, sem nenhuma delicadeza, insinuava que o texto não era meu, pois como podia uma menina daquela idade ter idéias e um linguajar tão fatalista? Os anos se passaram e aprendi também que existem outras formas de amar, independentes daquelas que envolvem dois amantes, que estão mais ligadas a um sentir fraternal, mas que eu já vislumbrava sem grandes convicções. Este amor que redigi com violência nas metáforas e metonímias me parece cada vez mais distante diante da minha recusa de perda de sentidos. Eu amei desta forma uns bons anos adiante, e seja por medo ou falta de percepção, recolhi meus pés e deixei a beirada da rocha. Quando me dei conta era tarde, o sentimento permanecia e ainda permanece, mas outras pessoas haviam se entreposto entre nossos corpos e nós evitamos, em comum acordo, a possibilidade do encontro. Não existe frustração, existe o evitar de cruzamentos, o lembrar-se do outro como uma doença crônica que por vezes em dias chuvosos provoca uma dorzinha em algum lado, mesmo em uma cama preenchida pelo calor de um outro. E eis que há pouco menos de dois anos novamente reconheci o rosto deste sentir num dos caminhos da minha vidinha, neste momento bem vidinha, e mais uma vez me neguei a crê-lo como certo, mesmo porque unilateral, mesmo porque outra sobreposição de corpos. De novo criei brechas de fuga, espaços de estrada na minha mente, enganos dentro de mim. E bastam 2 minutos para jogar por terra a ficção gestada para me dar forças, me dar liga para que não me esfarele. 120 segundos que me fazem ir até você, sempre, como uma gota de mercúrio em um campo magnético.
Eu pólo negativo, você positivo.
Num taxi a caminho de casa fui pura Clarice: a máscara escorrendo do rosto falsamente maquiado na segurança da personagem . Me entregar significa a morte: deixar de ser quem sou agora nesse instante, transmutar-me em outro eu que existe sim, mas que me destrói, me despedaça.
Eu pólo negativo, você positivo.
Num taxi a caminho de casa fui pura Clarice: a máscara escorrendo do rosto falsamente maquiado na segurança da personagem . Me entregar significa a morte: deixar de ser quem sou agora nesse instante, transmutar-me em outro eu que existe sim, mas que me destrói, me despedaça.
domingo, 8 de novembro de 2009
Coisas que eu queria te dizer
Estou farta das suas reclamações, das suas cobranças, da sua cara fechada, do seu silêncio mal-humorado. Sua infelicidade constante me carrega para abismos escuros, para zonas de cegueira. A única coisa que temos ainda em comum, fora algum amor restante, é o fato de sermos estrangeiros sempre, não havendo qualquer lugar no mundo em que nos sintamos plenamente felizes, a não ser sob condições ideais. A diferença entre nós, porém, é que eu há muito, sob a marreta pesada do aprendizado, percebi que não existem tais condições. Isso as torna, e também a mim, mais maleáveis (ou passíveis de aceitação). A vida nos leva por sua própria vontade, baby, podemos contornar um pouco o caminho, optar por um ou outro lado em uma bifurcação, mas o final da estrada é quase sempre o mesmo. O que mais você quer de mim? casa e comida, abrigo e carinho, já te dou. Já te dei anos, sangue e sonhos, te dou asas e a gaiola aberta, mas você fica empoleirado com olhos agourentos, dizendo que faz isso por mim. Eu não quero este tipo de coisa de você, a melhor coisa que se pode fazer por outra pessoa, amada ou odiada, é ser você próprio feliz. As possibilidades que te dou, quando recusadas, voltam para mim e me fazem pensar que talvez eu deva alçar vôos distantes, mesmo que para você pareça ser em uma vassoura. Faça um favor a você mesmo: abra janelas, enfrente as ondas, volte a construir castelos de areia mesmo que bem frágeis, seja feliz. Não vou deixar de te amar por isso, ao contrário, te amarei bem mais, mesmo que à distância.
domingo, 4 de outubro de 2009
Decisões pós-férias (nada de novo no front...)
Contar mais vezes até dez
Respirar fundo
Ficar de boca fechada
Não me surpreender com mais nada
Não esperar absolutamente nada das pessoas(a não ser o pior)
Não fornecer munição
Não ser tão transparente
Não me dedicar tanto a coisas que não valham a pena
Não me desestruturar tanto frente a certas pessoas
Criar rotas de fuga
PS: Todas já quebradas antes do término da segunda semana de volta...
Respirar fundo
Ficar de boca fechada
Não me surpreender com mais nada
Não esperar absolutamente nada das pessoas(a não ser o pior)
Não fornecer munição
Não ser tão transparente
Não me dedicar tanto a coisas que não valham a pena
Não me desestruturar tanto frente a certas pessoas
Criar rotas de fuga
PS: Todas já quebradas antes do término da segunda semana de volta...
quinta-feira, 30 de julho de 2009
S.O.S
Sempre gostei do frio, dos outonos pálidos e mesmo cinzentos invernos, sempre pouco solar, Deus me deu desidrose, fotofobia, pressão baixa. Mas de repente o ar molhado sufoca, impede a respiração, os joelhos e demais juntas doem, a gosma penetra, fere, a umidade me mata. Um ano do cubículo sem sol criou escaras, camadas de líquen sobre os ossos que ainda persistem, que não descolaram apesar do tempo passado, orvalho sobre a pele. Continuo gostando dos banhos de chuva, não incomoda andar sob pingos quando gordos, a água é limpa, mesmo sob o céu poluído e tóxico lava meus pensamentos. Incomodam-me as gotículas paralisadas nos cômodos, nas roupas, na superfície das portas. A gente envelhece, eu sei, começa a fazer previsões do tempo pelas cicatrizes, e também agora talvez eu esteja tão próxima da queda como nunca, tão próxima de uma depressão maior do que o pânico com o qual lutei ainda com forças há três anos, pior que há mais de dez anos me defendendo de uma infecção nos pulmões, coração e cérebro, que este tempo antecipa desastres. Estou bambeando sobre o nylon, passando longe de pontes e escondendo a tesoura antes de usar o espelho, durante o dia distribuindo sorrisos que falseiam a obscuridade interior, a vontade de rasgar a cobertura de escamas encharcadas e vomitar vísceras- é difícil abrir mão da máscara de fortaleza e futilidade diária, minha armadura brilhosa corroída por ferrugem tetânica...!
Estou mais do que nunca precisando de você, volta meu querido, meu apoio sem bases muito firmes, meu cilindro de oxigênio mal calibrado, meu bote salva vidas furado, minha saída de emergência miragem, mas a única que enxergo nesse instante de vertigem em que me afogo na neblina úmida.
domingo, 19 de julho de 2009
O que é feito da Mulher-Aranha?

Se tem uma coisa que devo agradecer em nascer entre dois irmãos, entrar na escola(e não creche) com 01 ano de idade e ter morado em uma rua predominantemente masculina, é ter adquirido alguns hábitos incomuns no que se refere a gosto infanto-juvenil. Meu irmão mais velho me ensinou a brigar como homem, gostar de carrinho de rolimã, ouvir Beatles e heavy-metal, curtir filmes de terror e, finalmente, a ler gibis de heróis. As HQs e seus personagens sofreram uma evolução imensa durante toda minha infância e adolescência, hoje acompanho bem pouco, a não ser por edições especiais, mas alguns fatos ficaram marcados:o Surfista Prateado foi um dos primeiros personagens a apresentar dúvidas existenciais e questionamentos filosóficos, mas não era humano. Sem dúvida o Homem-Aranha foi o primeiro a ser humano na sua totalidade, um cara fodido, com problemas reais como a falta de grana, necessidades básicas de sobrevivência, emprego de merda, etc etc. Mas a personagem que mais causou impacto na minha pré-adolescência foi sem dúvida a Mulher-Aranha (que nenhuma ligação tinha com sua versão masculina).
A Mulher-Aranha chamava-se Jessica Drew, era filha de um cientista ou coisa assim, tinha adquirido seus poderes ainda criança, quando recebeu uma injeção a base de não sei o quê de aranha para não morrer. A questão não é como ou quais poderes ganhou, o grande lance da Mulher-Aranha era quem e como era sua vida. Era uma morena gênero "gostosona" quando vestia o uniforme, já tinha sido do Mal mas se redimido, era atacada e incompreendida. E também seu alter-ego, Jessica. Jessica era bonita, inteligente, mas não arranjava emprego, namorado, ou amigos. Era estranha. As pessoas sentiam uma certa aversão por ela. Provocava uma "sensação", provavelmente química, que afastava as pessoas. O fato é que não achava lugar no mundo. Lembro das inúmeras tentativas frustradas em entrevistas, dos caras que a convidavam para sair e davam pra trás, da absoluta solidão e falta de relações.
Eu era criança, tinha poucas amigas e me dava bem melhor com os meninos, mas tem um momento em que os interesses meio que se afastam, infelizmente é o mesmo em que as meninas também têm uma tendência mais rápida a se ligarem em futilidades (isso muda com o tempo, ou ao menos se iguala), as mínimas amigas que tinha foram convergindo para outros caminhos, os garotos para seus próprios, e eu era, naquele momento, a Mulher-Aranha ou, pelo menos, Jessica Drew. Lógico que nem de longe tinha um terço da beleza dela, mas compensava com a mesma timidez, o mesmo sofrimento, a mesma sensação de inadaptabilidade. Ao contrário das crianças que se perguntam, ou imaginam, que foram adotadas, eu me perguntava se não havia recebido uma injeção igual a da Mulher-Aranha.
E cresci assim, fechada, quase incapaz de levar um papo numa boa com as pessoas por um longo período, sendo aquela que nas festas e aglomerados passa despercebida, que nos grupos fica isolada, que não se sente à vontade em nenhum lugar. Não reclamo disso, aprendi a conviver com o fato e esperar as pessoas exatas para me deixar conhecer.
Mas hoje acordei às 4h30 da manhã depois de 03 dias de uma pseudo (re)convivência com alguém que já amei demais de uma forma não-carnal mas ainda mais profunda, alguém que é capaz de me levar às lágrimas com os mais simples gestos porque eu conheço-o bem demais e ele a mim, embora a gente se veja tão pouco, alguém que me enxerga por baixo da máscara de pele, e me mantive bem longe, à distância segura, no escuro deixando as palavras que só a mim atingem de maneira tão particular me machucarem. Tão perto, tão longe...
Me lembrei da Mulher-Aranha. Um dia ela simplesmente sumiu, deixou de circular. E embora acredite, não consigo me lembrar se em algum momento se encontrou, foi acolhida. Porque simplesmente resolveram cancelá-la.
domingo, 28 de junho de 2009
Blusa Vermelha
Preciso encontrar uma saída, fecho os olhos e vejo o rosto dele, um rosto, nada mais, talvez a saída esteja dentro de mim ou sobre o criado-mudo, estou só, na penumbra, acendo a luz do abajur, minha imagem surge no espelho, uma mulher madura de cabelos negros, um rosto grave, olhar pacífico, em pé diante do espelho acaricio meus seios, a pele do braço se arrepia, borrifo perfume em meu corpo, escolho a roupa que vou usar, uma saia preta e uma blusa vermelha, uma mulher de blusa vermelha está disposta a se entregar, escolho a roupa íntima, meias de seda finas, estendo as peças sobre a cama, fecho os olhos para pensar nele, decidir, os compromissos têm vida própria, olho para ele enquanto ele se move na escuridão, meu espírito prisioneiro de alguma secreta lei natural, como um girassol, se eu fosse um pouco mais jovem, alguns anos somente, estendo a pele de meu rosto, visto a lingerie, calço as meias e os sapatos de salto alto, se eu fosse um pouco mais magra, um pouco menos triste, visto a saia, a blusa vermelha, passo batom, e se ele não gostar de batom?e se ele não gostar de meu perfume, de meus pêlos, e se ele não gostar de mim?um ser humano seduzido é uma opressão, fecho os olhos, a imagem dele flutua no escuro, por que seu olhar era pra mim?por que ele me olhava com olhos tão pungentes? não quero esse olhar suplicante, não quero revelar meu corpo nem minha alma, eu não saberia dizer as palavras que penso ou as palavras que ele espera de mim ou eu mesma espero, visto a blusa vermelha, a blusa marca os meus seios e envolve meu corpo numa espécie de fulgor, de sugestão sexual, de carne, alguém me disse que uma mulher ao vestir uma blusa vermelha está disposta a seduzir e a se entregar, o vermelho atrai e prende os olhares ao corpo, ou aos lábios, um batom vermelho um vestido vermelho um copo de sangue um incêndio, introduz o olhar no interior do corpo, penteio os cabelos, pego o vidro de perfume, o isqueiro, apago a luz, em pé diante do espelho derramo o perfume em meu corpo e me vejo vestida com a blusa vermelha, pronta para me entregar, pouco importa o que eu revelar, nunca será a verdade.
Ana Miranda
PS: Na minha total falta de criatividade e disposição, pra que tentar escrever melhor do que já escreveram um dia?
domingo, 24 de maio de 2009
Quando pequena me alimentava de pimenteira brava, dizia minha avó, comia jiló imaginário, era marrenta, cruzava os braços, travava os lábios e me recusava a chorar. Recusei peito e leite materno, aprendi a tomar café quente, frio ou gelado com meu avô, a brigar com irmão mais velho, escalava parede subindo pelos batentes das portas, corria na rua sem camisa, andava de carrinho de rolimã. Estourei dois dedos em caixa de espoleta, explodia formigueiro no sítio, subia no telhado, subia em árvore pra pular segurando folhagem achando que ia voar, cortava cabelo das bonecas. Corri com febre alta, ralei joelho e infeccionou por meses, peguei sarampo com 16 - o que estragou minha saúde mas tudo bem - já dei soco na cara de namorado, mordi lábio de outro até sangrar, fui segurada pra não pular em pescoço de diretor, arranquei maçaneta de camarim, quebrei box de banheiro com chute.
Hoje sou calma, gosto ainda de chupar limão azedo, comer mostarda de colher, falar palavrão a torto e direito quando puta da vida, fazer serviço de manicure com os dentes, cutucar casca de ferida. Hoje eu choro de raiva, choro também de dor sentida, ainda tenho ganas de pular em pescoço alheio, mas me tornei civilizada, enquadrada, burocrática. Estou voltando ao ciclo da gripe constante.
sábado, 23 de maio de 2009
A caminho de casa parei naquele posto, entrei no Banco, e lá, solitária, meu cartão travou no caixa eletrônico. Tive um segundo de sensação de Deja vu, lembrei de vc, Joãozinho, a gente se encontrou pelo menos umas três vezes na mesma situação, no mesmo lugar, tão perto do seu trabalho... Vc pediu licença e explicou que naquele caixa tinha que colocar o cartão devagar, tirar com a mesma velocidade, que dava certo. Eu não tenho pensado muito em vc, acho que a mente tenta colocar os fatos dolorosos pra debaixo do tapete, e de vez em quando bate um vento, a aba levanta e a gente vê o que tem por baixo. É que foi tudo tão absurdo, a gente ficou sabendo mais de um mês depois, ninguém teve coragem de avisar, de divulgar as palavras trágicas, de dividir a dor. Eu não te via fazia muito, fiquei um tempão sem ir na oficina, ou porque não tinha carro, ou porque ainda não precisava, e ainda não acredito na história. Eu te vi ali do meu lado no caixa eletrônico do banco absolutamente vazio e vc estava com os cabelos ainda no ombro, aqueles cabelos tantas vezes longos, invejáveis por conta do brilho e do negror, cabelos que qualquer mulher daria a vida pra ter. Os mesmos olhos amigáveis, o mesmo sorriso que iluminava o dia mesmo quando apresentava notícia ruim, mesmo quando cheguei totalmente sem freio, sem pastilha, sem disco na oficina. A gente mal se conhecia mas talvez pelos nossos pais parecia que éramos amigos de infância, dava vontade de passar a tarde batendo papo, eu te contei tantas coisas, que ia pra Portugal e vc como bom "filho de" me avisou que os portugueses eram tapados, que tinham viseira impedindo a visão periférica, reclamei de trabalho, da vida, de tudo. E vc com aquele jeitão de sempre, na boa, falava de namorada, de literatura, enquanto analisava motor. Vc era um dos ursos que encontrei pelo caminho, alma boa, coração de ouro, gestos de gentleman. A gente teve o mesmo estudo mas vc optou por um trabalho mais braçal, talvez porque gostasse de consertar as coisas, de montar e remontar peças, de lidar com mecanismos, com coisas que podem ser arrumadas. Eu senti sua mão ali no cartão, ele finalmente passou e eu saí com lágrimas escorrendo por baixo dos óculos escuros, ainda não posso acreditar que foi vc que fez isso contigo mesmo, não posso
Ursos

Ursos são fofos, grandalhões, assustadores. Desde nossa mais tenra infância habitam nosso imaginário como objeto de desejo (quem nunca quis um ursinho de pelúcia?). Nunca me esqueço do filme O Urso de Jean Jacques Annaud, na minha adolescência, chorei feito uma condenada...
Embora animais selvagens, os ursos são na deles, não costumam atacar a não ser quando ameaçados, incomodados, quando têm seu território invadido, ou em caso de extrema fome. Aliás, a maioria dos ursos alimenta-se de insetos, frutos, peixes e pequenos animais. Não costumam caçar seres humanos.
Os ursos estimulam nossa vontade de abraçar, de apertar, mesmo porque somos várias vezes bombardeados com aquelas fotos em que reconhecemos gestos e atitudes tipicamente humanos. Mas aí é que mora o perigo. Apesar do tamanho, dos olhos dóceis e da aparência bonachona, são ágeis e certeiros no ataque: possuem garras enormes e afiadas, faro apurado, além de, é claro, incrível força física.
Conheci 04 ursos na minha vida:
um na família;
outro particularmente letal e traiçoeiro;
outro que sumiu do mundo de forma trágica;
e, bem...outro que não sei se tenho certeza absoluta ou conhecimento pleno para dizer se é realmente da espécie.
Pra ser honesta, é difícil ser imparcial, já que simpatizo bastante com os ursos: creio que devem ser ótimos cobertores não só de orelha, gosto do jeito manso que esconde a fera, aprecio me imaginar sumindo no pelo macio.
sexta-feira, 15 de maio de 2009
Gripe
Ficar fisicamente frágil.
Drogar-se.
Exigir que a mente e a vontade sejam ainda mais fortes para poder sustentar o corpo.
Odeio me sentir assim, porque nessas horas é difícil resistir ao desejo de me deixar.
São nesses momentos que sou tão acessível, tão fácil de ser subjugada.
Se ele me abraçasse, se me sustentasse, ou apenas tocasse meu rosto com a mão, não teria forças para resistir.
Mas seus olhos não atravessaram a névoa, não me viram por trás do véu da indiferença.
Ingenuidade
As pessoas acham que sou ingênua.Acham que porque sou na boa, às vezes polida, às vezes cuidadosa, não sou capaz de ver as coisas, que sou "contaminável", que quando estouro não é por mim. Eu sei muito bem o que faço. Me conheço bem demais para saber o quanto dar murro em ponta de faca é meu mote, o quanto sou teimosa, o quanto sou irascível, o quanto opto ou não pela crueldade. Aqueles que me acham ingênua são os que se deixam levar pela primeira impressão, o pela própria. Não sou gado, aí está a diferença. Não vivo em verdes prados mansamente.Talvez minha rebeldia seja ingênua então?
Uma das coisas que fazem parte do ofício do ator é compreender "as razões"(e não necessariamente justificar) do pior assassino. Ver as pessoas por trás das máscaras. Talvez haja em mim a ingenuidade de acreditar que as máscaras possam cair, que mesmo a mais forte couraça possa ser perfurada, minada. E o mundo não é assim, as pessoas não são assim, afinal. As pessoas não estão interessadas no que está a seu lado, no que está além da ponta do seu nariz, no que ultrapassa seu umbigo.
E por incrível que pareça, me preocupo com a saúde e bem-estar desses desgraçados.
sexta-feira, 8 de maio de 2009
Tango
Vamos cruzar as pernas, meu bem
Vamos fazer el ocho
Vamos deslizar pelo tablado
Vou enganchar seus joelhos com minhas pernas rendadas
Vou apoiar meu corpo sobre o teu
Espalme a mão na minha lombar
Pratique sua maleabilidade na minha cintura
Vamos alternar compassos, meu bem
Vamos riscar a madeira
Vou descobrir minha nuca
Vou arrastar mis tacones
Segure minha coxa contra seus quadris
Empurre meu rosto pra longe do teu
Me fira com seu punhal
Vou te sangrar com meus sussurros
Vamos fazer el ocho
Vamos deslizar pelo tablado
Vou enganchar seus joelhos com minhas pernas rendadas
Vou apoiar meu corpo sobre o teu
Espalme a mão na minha lombar
Pratique sua maleabilidade na minha cintura
Vamos alternar compassos, meu bem
Vamos riscar a madeira
Vou descobrir minha nuca
Vou arrastar mis tacones
Segure minha coxa contra seus quadris
Empurre meu rosto pra longe do teu
Me fira com seu punhal
Vou te sangrar com meus sussurros
quarta-feira, 6 de maio de 2009
Tarde Demais
Você chegou tarde demais para
que eu não tivesse armadura
que eu não tivesse cicatrizes
que eu não tivesse celulite
você chegou tarde demais para
que eu fosse ainda inocente
que eu não fosse Frankenstein
que eu não me magoasse
que eu não entendesse suas razões
você chegou tarde demais para
que eu fosse criança
que eu tivesse coragem
que eu me entregasse
Você chegou tarde demais para
que eu tivesse a mesa posta
que eu tivesse a cama arrumada
que eu fosse só sua
Você chegou tarde demais para
que eu me servisse
de corpo e alma
na bandeja.
que eu não tivesse armadura
que eu não tivesse cicatrizes
que eu não tivesse celulite
você chegou tarde demais para
que eu fosse ainda inocente
que eu não fosse Frankenstein
que eu não me magoasse
que eu não entendesse suas razões
você chegou tarde demais para
que eu fosse criança
que eu tivesse coragem
que eu me entregasse
Você chegou tarde demais para
que eu tivesse a mesa posta
que eu tivesse a cama arrumada
que eu fosse só sua
Você chegou tarde demais para
que eu me servisse
de corpo e alma
na bandeja.
Cedo Demais
Você chegou cedo demais para
que eu tivesse escudo
que eu tivesse marcas
que eu tivesse quadris
você chegou cedo demais para
que eu não fosse inocente
que eu fosse inteira
que eu me magoasse
que eu entendesse suas razões
você chegou cedo demais para
que eu fosse madura
que eu tivesse coragem
que eu me entregasse
Você chegou cedo demais para
que eu tivesse a mesa posta
que eu tivesse a cama arrumada
que eu fosse só sua
Você chegou cedo demais para
que eu me servisse
de corpo e alma
na bandeja.
que eu tivesse escudo
que eu tivesse marcas
que eu tivesse quadris
você chegou cedo demais para
que eu não fosse inocente
que eu fosse inteira
que eu me magoasse
que eu entendesse suas razões
você chegou cedo demais para
que eu fosse madura
que eu tivesse coragem
que eu me entregasse
Você chegou cedo demais para
que eu tivesse a mesa posta
que eu tivesse a cama arrumada
que eu fosse só sua
Você chegou cedo demais para
que eu me servisse
de corpo e alma
na bandeja.
Retrato Falado (mais bobagens?)
Fiz um retrato falado de você na minha mente: 1,84, ou mais, visto me sentir assim pequenina. Não sei se gordo nem magro, do seu corpo só consigo visualizar as extensões: braços firmes (que imagino ao redor dos meus ombros?) terminando em mãos grandes, famintas. Abaixo da cintura fica difícil falar, baixo, ou melhor, levanto os olhos na linha do infinito cheios de pudor mudo(?) e rubror na face. Posso falar mais do rosto largo, dos lábios cheios de deboche. O nariz? Ah, não sei, tenho vergonha de olhar detalhadamente, de me aproximar sem cuidado e cair na armadilha dos olhos já rodeados de algumas ruguinhas, mas ainda assim de lince, ainda assim magnéticos, carcereiros.
Supermercado (filosofia besta)
As coisas que mais quero nem sempre estão disponíveis na prateleira. Quando estão, geralmente vêm com um preço muito mais alto do que posso pagar.
Volto pra casa, economizo por uns dias, passo fome, coloco moedas num porquinho imaginário.
Um dia volto confiante, quase orgulhosa da minha contenção.
Mas aí ou perderam o prazo de validade, ou foram retiradas de circulação, ou foram levadas por outra pessoa.
Volto pra casa, economizo por uns dias, passo fome, coloco moedas num porquinho imaginário.
Um dia volto confiante, quase orgulhosa da minha contenção.
Mas aí ou perderam o prazo de validade, ou foram retiradas de circulação, ou foram levadas por outra pessoa.
domingo, 3 de maio de 2009
O Cinto de (In)utilidades
Pequeno conto moral sem moralidade alguma
Gretel era a princesa do Reino da Carochinha, um reino distante, do distrito dos contos de fadas. Não era feia, nem tampouco bonita, o que, no seu caso, bem pouco importava, visto se tratar de quem se tratava, objeto de desejo em 09 entre 10 contos do gênero. Mas se tinha algo em que chamava atenção, era no gênio: ao contrário das companheiras de classe, Gretel era dotada de língua afiada, mau-humor dos diabos, atitude bélica e uma esquerda considerável. Batia qualquer homem, gigante ou dragão em qualquer embate.
Como era...princesa, chegou a época em que estava mais do que na idade de casar, ter filhos, virar rainha ou coisa que o valha. Sua fama era notória não só no reino mas também em outros, diariamente chegavam principes de todas as partes do mundo para desafiá-la em combate. Acabavam com um belo pontapé no traseiro!
Não pensem vocês que Gretel era bruxa disfarçada de princesa, Gretel era fundamentalmente doce, dada a paixões e sonhos tão bobos como quaisquer outros, só não tinha lá muita disposição para mesuras, delicadezas, belas palavras... Um dia...
Um dia estava Gretel sentada às margens do fosso do castelo, quando de surpresa chegou um mancebo em seu alazão.Não se fez de rogada, triscou os saltos do sapatinho de cristal no cascalho, ao que foi respondida com as esporas das botas sete léguas do donzelo.
Bom, se tinha uma coisa que Gretel havia aprendido nestes anos todos, era avaliar com competência seus oponentes: ali, não era o caso de puxar encrenca imediata, estava mais para um vale-tudo discreto. Isso feito, acordaram e assinaram os termos do combate e Gretel seguiu para dentro, tomou seu cinturão mágico, e passou a preenchê-lo com as seguintes armas:
- Luvas de boxe
-Arco e Flecha portátil (hum...Só aplicável em caso de pontaria certeira e Gretel estava meio destreinada, mas vá lá...)
-Tresoitão (Idem acima)
-Canivete suiço ( só para abordagem corpo-a-corpo)
-Casca de banana ( só no caso de contar com o elemento surpresa)
-Saco de areia ( no caso de precisar jogar sujo)
-Cápsula sublingual de cianureto (só no caso de abordagem MAIS corpo-a-corpo ainda)
Insatisfeita aproveitou o resto da noite para afiar unhas dos pés e mãos com lixa de aço, enquanto estudava a missiva e traçava mapas(naquele tempo regras de honra e blábláblá ditavam que o desafiante escolhesse o local do duelo).
Nas primeiras horas da manhã seguiu para o bosque.Andou por um dia.Por dois.Por três. Ao entardecer do quarto dia chegou à clareira indicada. Ali, há aproximadamente 10 metros, estava o inimigo. Entre eles estendia-se imenso leito de pétalas vermelhas.Gretel achou aquilo meio ridículo, será que pretendia desarmá-la entre risos, coitado? Well, sem mais delongas vamos ao que interessa, pensou, enquanto avançava descalça, esmagando com suas patas tão macia coberta. E eis que as flores maceradas liberavam perfume inebriante, sugando-lhe as forças. Já no meio do caminho pesavam-lhe demais o cinturão, as armas, ao que, após mais dois ou três passos estava largando-os ao chão. Afinal ainda tinha garras, deveriam lhe bastar.
Quando estava a centímetros do rosto não mais tão odiado(devido o cansaço), sentindo o bafo do outro entrar pelas narinas, procurando em vão alcançar ao menos as cápsulas (longe, longe...), desfaleceu. Não foi ao solo, amparada que foi por pás quase indestrutíveis.
E foi assim que Gretel e seu agora consorte viveram, felizes para sempre(?????), adotando práticas menos carnívoras e se alimentando de frutos silvestres.
FIM
Sentei ali na pedra fria pensando. Foi bom vir pra cá, me afastar. Livrar-me da estática, dos ruídos. Estar sozinha pra mim é conseguir pensar sem interferências, sem o barulho interno, mas principalmente sem o externo. Eu precisava ter ligado para aquela amiga que prometi, mas passei o final de semana com uma quase gripe curtindo muito minha cama, cobertores, minha gata, a casa com cheiro de mãe. Tive vontade louca de voltar em alguns momentos, de me enfiar de novo na poluição sonora, mas agora vejo que foi bom resistir. Sentei ali pra pensar, colocar a cabeça em ordem, avaliar opções, andamentos.
Sinto sim saudades de você, mesmo com suas cartas desaforadas, suas cobranças excessivas, com todas as coisas que entreguei nas suas mãos, muito mais do que eu podia dar, mesmo com sua insegurança irritante, com sua preguiça, sua acomodação, sua quase traição. Sinto saudades da sua bondade. Estou tentando ser boa, estou fazendo todas estas coisas há 04 anos tentando ser boa. Porque há 04 anos não suportava mais não gostar daquilo que tinha me tornado, mas sei também que mais de 03 anos em estado de quase total isolamento, dentro de uma cápsula úmida e escura, não me fizeram bem, me tornei ainda mais tímida, ainda mais anti-social, ainda mais medrosa. Talvez os sonhos não resistam afinal à realidade, embora tenha vivido seus sonhos muito mais do que os meus e tenha tido também calafrios e pesadelos diurnos, e escondido de você até se tornarem insustentáveis. E você está passando por isso agora, e tentando da mesma forma escapar à sua maneira, só que sua fuga necessita de companheira de viagem(que preciso avaliar se vou conseguir ser).
Estou tentando fazer as coisas certas dessa vez, só que sou assim bipartida, eu sempre quis coisas inimagináveis e quase impossíveis, eu sou a pessimista sonhadora, a eterna insatisfeita. Preciso de calma e tormenta ao mesmo tempo. A calma é boa, a tormenta deixa entrar o ruído, os silvos do vento, o uivo dos lobos. A tormenta me leva a pensar em paixões obscuras, em rotas de fuga, em dar abrigo a demônios.
Eu não quero precisar novamente de exorcismo.
O amor existe, está aqui, posso sentí-lo na saudade. Se eu me der paz.
Talvez seja simples assim, talvez eu não necessite de paixões avassaladoras e promessas criadas na minha cabeça, se elas me fazem tão mal, tão viva, mas tão mal.
Você vai voltar e vou te abraçar com doçura, você vai me obrigar a me alimentar direito, me proibir de ir trabalhar tão cedo, reforçar meu sistema imunológico, reconstruir meu abrigo anti-bombas.
Vou levantar agora, vou deixar a pedra em que já sentamos algumas vezes juntos, mas muito mais eu ocupei-a sozinha, vou escrever aquele e-mail com mais de três palavras que você me pediu, que estou te devendo faz dias.
Nina
Hoje acordei com o sol batendo no rosto, um sol fraquinho de outono, mas, ainda assim, O Sol, batendo no rosto. Em cima do peito os 03 ou 04 quilos do meu eterno bebê, da minha personagem de Greta Garbo. Enterrei de leve os dedos na cabeça macia, afagando-a, sentindo uma vontade doida de apertar sua pelúcia rajada.
Que bom seria poder acordar todos os dias assim, com algo que você ama e que te ama sem licenças ao lado, sentindo um coraçãozinho bater junto ao seu.
Trouxe-a para casa minúscula, a mais feinha, mais arrepiadinha, ninguém ia querer.Cresceu dormindo junto a meu corpo, na dobra do cotovelo, meu despertador de lambidas ásperas nas mãos. Nunca me arranhou, nunca precisou disputar lugar com ninguém, seja gente ou bicho. Acostumou-se a tomar água na torneira, quase alagou um apartamento, é arredia e rabugenta com estranhos, é possessiva.
Passei duas noites de insônia culpada quando foi castrada, deitada em concha ao redor do corpinho mole, ministrando água com açúcar através de seringa, refazendo curativo, desculpando-me.
É um ser que não preciso agradar, entende com perfeição meus silêncios... Mesmo quando a abandono, não uma, mas duas, três, várias vezes, encontro novamente seus olhos de mel, sua face de gato-bebê me recepcionando.
Quero levá-la para a nova casa, mesmo temporária, mesmo menor, mesmo mais fria, mesmo mais solitária. Preciso como nunca recuperar esse bem estar.
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